Uma dose: Cinismo de nosso tempo
Não vivemos uma nova ideologia e nem uma pós-ideologia. A ideologia (uma hipótese) está funcionando como sempre, a questão é que ela se apresenta de outras formas.
O cinismo parece ser o funcionamento disso que chamamos ideologia, isto é, aquilo que tem sua estrutura na linguagem e por isso se materializa nos discursos.
Para que haja discurso é necessário que haja sujeito, e para que haja sujeito, como categoria analítica, é preciso considerar a ideologia, essa operação na qual a língua e a história estão em movimento.
Na Antiguidade, o cinismo tinha a ver com a posição-subjetiva-discursiva do sujeito. De forma bem resumida, o cínico, como um cético, não estava preocupado com os argumentos utilizados pelos poderosos, mesmo sabendo sobre esses argumentos. O cinismo na Grécia funcionava como um trabalho de ousadia, que produzia certa resistência. Mas a linguagem não é algo assim tão evidente, tão formatada, estática, e o cinismo também pode ser um funcionamento bem poderoso para o próprio poder.
Ao invés de resistência, violência.
O programa Roda Viva, da TV Cultura, com o candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro, materializa um pouco o modo como o cinismo aparece enquanto prática discursiva-ideológica na política e, consequentemente, nos mecanismos de poder, como os aparelhos ideológicos de Estado.
A suposta eficácia do cinismo parece ser justamente sua maneira de neutralizar o outro; não por acaso as argumentações de Bolsonaro deixaram os profissionais do programa Roda Viva com as mãos atadas. Seria esse um o efeito do cinismo? o cinismo seria uma trama, na qual atores e plateia se imaginam livres de qualquer determinação que não as suas próprias vontades?
O cinismo parece ter um funcionamento um tanto neurótico.
Estou pensando aqui ... o cara enuncia de uma posição imaginaria do “eu”, cujo maior delírio é a certeza de autonomia.
Se esse sujeito ocupa uma posição de poder, piora, porque há a simbolização dessa autonomia. Não é só imaginaria. É política.
Ao saber da posição que ocupa, desliza sem vergonha. A garantia para poder "abusar" e "burlar" as regras, é o lugar que se tem no laço social. Essa garantia permite certa perversidade.
Diferente da ironia, que exige a presença do interlocutor para que ela funcione, isto é, seja "compreendida" como tal, o cinismo parece que necessita é da eliminação ou da neutralização do outro, ainda que esse efeito não seja evidente para os interlocutores.
Os seguidores de Bolsonaro percebem que seu candidato não responde o que lhe é perguntado? Eles parecem estar seduzidos pela fala "afrontosa" do candidato e não percebem como seu discurso representa uma promessa vazia.
A promessa vazia não importa, porque Bolsonaro produz em seu discurso um efeito de solução. Para os mais neuróticos, isso basta. Não querem precisar saber mais do que isso.
O sujeito não sabe a organização do que diz, mas diz porque sofre determinações. O cinismo parece ser esse organizador para a estabilização dos sentidos, ordenando o dizer, quiça o imaginário.
Essa maneira de "organizar" o simbólico reconhece outras posições discursivas-ideológicas, mas se usa desse reconhecimento para justamente apagá-las.
A eficácia do cinismo é justamente no modo como esse apagamento acontece, transformando a notícia ruim em notícia boa, quase sempre acompanhado de um "mas" nas formulações.
Bolsonaro acredita em sua performance como alguém que está burlando muito bem o outro, o que não deixa de mostrar como o cinismo tem a ver uma certa fantasia sobre o outro e sobre o eu.
O discurso cínico pressupõe uma tomada de posição meio desengajada, quase que para ser parodiada.
Bolsonaro se imagina autônomo e livre de qualquer determinação que não seja sua vontade. Talvez esse seja o maior perigo.
O cinismo parece ser o funcionamento disso que chamamos ideologia, isto é, aquilo que tem sua estrutura na linguagem e por isso se materializa nos discursos.
Para que haja discurso é necessário que haja sujeito, e para que haja sujeito, como categoria analítica, é preciso considerar a ideologia, essa operação na qual a língua e a história estão em movimento.
Na Antiguidade, o cinismo tinha a ver com a posição-subjetiva-discursiva do sujeito. De forma bem resumida, o cínico, como um cético, não estava preocupado com os argumentos utilizados pelos poderosos, mesmo sabendo sobre esses argumentos. O cinismo na Grécia funcionava como um trabalho de ousadia, que produzia certa resistência. Mas a linguagem não é algo assim tão evidente, tão formatada, estática, e o cinismo também pode ser um funcionamento bem poderoso para o próprio poder.
Ao invés de resistência, violência.
O programa Roda Viva, da TV Cultura, com o candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro, materializa um pouco o modo como o cinismo aparece enquanto prática discursiva-ideológica na política e, consequentemente, nos mecanismos de poder, como os aparelhos ideológicos de Estado.
A suposta eficácia do cinismo parece ser justamente sua maneira de neutralizar o outro; não por acaso as argumentações de Bolsonaro deixaram os profissionais do programa Roda Viva com as mãos atadas. Seria esse um o efeito do cinismo? o cinismo seria uma trama, na qual atores e plateia se imaginam livres de qualquer determinação que não as suas próprias vontades?
O cinismo parece ter um funcionamento um tanto neurótico.
Estou pensando aqui ... o cara enuncia de uma posição imaginaria do “eu”, cujo maior delírio é a certeza de autonomia.
Se esse sujeito ocupa uma posição de poder, piora, porque há a simbolização dessa autonomia. Não é só imaginaria. É política.
Ao saber da posição que ocupa, desliza sem vergonha. A garantia para poder "abusar" e "burlar" as regras, é o lugar que se tem no laço social. Essa garantia permite certa perversidade.
Diferente da ironia, que exige a presença do interlocutor para que ela funcione, isto é, seja "compreendida" como tal, o cinismo parece que necessita é da eliminação ou da neutralização do outro, ainda que esse efeito não seja evidente para os interlocutores.
Os seguidores de Bolsonaro percebem que seu candidato não responde o que lhe é perguntado? Eles parecem estar seduzidos pela fala "afrontosa" do candidato e não percebem como seu discurso representa uma promessa vazia.
A promessa vazia não importa, porque Bolsonaro produz em seu discurso um efeito de solução. Para os mais neuróticos, isso basta. Não querem precisar saber mais do que isso.
O sujeito não sabe a organização do que diz, mas diz porque sofre determinações. O cinismo parece ser esse organizador para a estabilização dos sentidos, ordenando o dizer, quiça o imaginário.
Essa maneira de "organizar" o simbólico reconhece outras posições discursivas-ideológicas, mas se usa desse reconhecimento para justamente apagá-las.
A eficácia do cinismo é justamente no modo como esse apagamento acontece, transformando a notícia ruim em notícia boa, quase sempre acompanhado de um "mas" nas formulações.
Bolsonaro acredita em sua performance como alguém que está burlando muito bem o outro, o que não deixa de mostrar como o cinismo tem a ver uma certa fantasia sobre o outro e sobre o eu.
O discurso cínico pressupõe uma tomada de posição meio desengajada, quase que para ser parodiada.
Bolsonaro se imagina autônomo e livre de qualquer determinação que não seja sua vontade. Talvez esse seja o maior perigo.
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