Uma dose: Qual é a minha responsabilidade naquilo que (me) acontece?

Qual é a minha responsabilidade naquilo que me acontece?

Qual é a sua responsabilidade naquilo que lhe acontece?

Fazer essa questão não é simples, mas é um ato ético, no limite.

As nossas dores e nos nossos prazeres  também dizem respeito a nós.

Infelizmente, na maioria das vezes, terceirizamos essa responsabilidade. E ao terceirizar, fantasiamos um pouco. Só que na fantasia a gente não precisa encarar o real. Esse real que aparece as vezes como RESTO daquilo que não foi possível ser simbolizado, que não foi possível ser verbalizado.

“A nossa amizade acabou porque ela me traiu”.  😲🤨🧐

Quando não nos implicamos naquilo que nos acontece, nos tornamos fugitivos dessa experiência e experimentação que é a vida.

Não estou dizendo que fugir não seja doloroso. Até porque, para fugir, a gente quase sempre produz rejeição.

Rejeitar, transformar em lixo... faz com que o “abandono” seja mais cômodo.

Não quero dizer que fugir seja necessariamente algo fácil, no entanto, é o mais possível, porque quando a gente foge, a gente lida com aquilo que de alguma forma já se imagina/se espera. A gente tira a nossa responsabilidade sobre qualquer fracasso.

Diferente de encarar , ou seja, não fugir, que nos implica, o que torna tudo mais difícil. Porque..... encarar... pressupõe o risco, o contato com aquilo que não se conhece e nem se imagina conhecer.

“Qual sua responsabilidade naquilo que você chama de traição?”

A essa pergunta , o Eu não quer responder. O Eu não quer saber. O Eu acha que não tem nada com isso. A culpa é do outro. Isso o EU já sabe.

Apesar de ser mais cômodo, fugir tem seus efeitos/danos, afinal,  tudo que é recalcado ou reprimido, retorna, na maioria das vezes como um sintoma.

Por isso a briga, o conflito, o desentendimento não são de todo mal, como a moral social nos diz.

A agressividade pode ser uma potência!! Pode ser um jeito da gente não deixar subentendido aquilo que clama por palavra!

E pq? Pq a palavra nos situa.

Pois, aquilo que não foi dito, que nao foi “ligado”,  se torna angústia.

Não quero dizer com isso que devemos “dizer tudo”,  cometer sincericidios, como se só o que importasse fosse a gente e o que a gente pensa; até pq essa ideia de “dizer o que quer” é uma visão puramente imaginaria, EGOista, e que nega inclusive que há outros nas relações!

No final, o que quero dizer é que calar, silenciar... NÃO COSTUMA ser uma boa saída.

Aí você me pergunta: mas como dizer se nem eu sei o que é? Pois é... se fosse fácil viver, pra que a vida? A psicanálise existe (também) por isso.

O modo como lidamos com os acontecimentos e o modo com tais acontecimentos nos impactam dizem respeito a nos também (atente-se ao “também”). Não podemos abdicar dessa posição de atuantes.

Muitas vezes, fugimos quando algo de uma relação se quebra, quando algo se rompe (uma amizade por exemplo, mas pode ser muita coisa). Quando “isso” ocorre, não é exatamente um algo que se perde, uma coisa que era e deixou de ser. A traição de modo geral revela um silêncio, que agora se rompeu. O que se rompe é o silêncio que se mantinha intacto, às custas, inclusive, de muita insegura, dúvidas e angústia.

O desejo tem suas próprias regras. O desejo não reconhece a moral. Por isso os conflitos e o eterno mal estar estarão sempre presentes.

Quando a gente fala, a palavra ocupa o silêncio e. a fantasia cai! O amor narcísico cai.

Quando aqui falo sobre “silêncio”, me refiro a um específico: a censura.

Por essas e outras que lutar é um ato ético. Lutar é um ato de amor.  Lutar tem a ver com o desejo.

No limite, a gente escolhe ir ou ficar.

Que a gente possa se (h)a ver com as nossas escolhas.

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