Uma dose: Diferença entre análise e auto-ajuda:


O rapaz sofre porque quando ele bebe, ele se excede. Isso (se exceder) causa-lhe horror de si. Diz que...quando consegue beber moderadamente, ou quando recusa a bebida, se sente poderoso, disposto, satisfeito. O drama da sua vida é porque há algo que acontece e ele bebe. Sua angústia mora nesse "não saber" o que (lhe) acontece, fazendo-o se perder e "se encontrar" diante de um copo de bebida alcoólica. 

Uma análise se preocuparia em saber “o que é esse algo que (lhe) acontece". E para produzir um saber sobre isso, uma análise possibilita que as perguntas mobilizadoras sejam diferentes.

E o que diria a auto-ajuda? 

Que esse rapaz precisa ter metas claras e planejamento para conquistar seu objetivo: parar de beber. Ainda iria sugerir que, na hora que desse vontade de beber, ele pudesse trocar a bebida por uma corrida.

Eficiente? Pode ser. Eficaz? Não. 

Antes de dizermos o que é preciso fazer para...talvez pudêssemos (nos) perguntar ao rapaz: por que você se excede? Faz sentido? 

Esse tipo de questão não pressupõe um "já sabido", mas a construção de um saber até então não sabido. Estamos  tão acostumados ao discurso do mestre e ao protocolo pedagógico, os quais nos dizem o que devemos fazer para alcançar a meta x,  que não suportamos muitas vezes nos departamos com a questão que causa sofrimento, e que na maioria das vezes não nos faz sentido, não é totalmente compreensivo.

Como se deparar com o sofrimento sem apostilas?

Numa análise, o discurso do analista não se sustenta pelo viés da auto-ajuda. Um analista, como uma função, está ali para que a gente se escute por meio dessa função; que a gente se aproxime do inconsciente, ou, em outras palavras, do nosso desejo. Por isso, numa análise, acabamos por entender que não há comunicação sem falhas, sem restos, porque nem tudo que se escuta e que se diz se compreende.  

Numa análise a gente entende, de um jeito não linear, que a verdade não seria admitir a existência do falso, mas que a verdade continuaria sendo buscada ao mesmo tempo em que se afirma sua impossibilidade. Ou seja, a gente abandona a aspiração do “geral/universal”, pois isso pressupõe que, no limite, é possível conhecer esse “universal”, e “abraça” a constatação é de que há um singular ligado ao corpo. 


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