Uma dose: O paradoxo do poder
Calma! Este não é um post sobre política, apesar de ser. Este não é um texto sobre capitalismo, apesar de ser. Mas, sem dúvidas, este não é um texto sobre autoajuda.
Queria começar esse papo dizendo que eu não tenho muitas certezas. E quando escrevo isso, não se trata de arrogância ou de uma posição desengajada. Trata-se de reconhecer os limites do próprio saber.
Porém, se tem uma coisa que eu tenho quase certeza é de que a vida NÃO nos reserva um destino, num sentido pastoral; como se viver fosse um estado de preparação para um lugar ideal, em que haveria uma espécie de harmonia última. Bom, há quem acredite que esse lugar é a velhice, quando a aposentadoria chegar; outros acreditam que esse lugar é quando a morte chegar. Ou seja, há um sentido cronológico sobre como o tempo é concebido nas nossas formas de viver (ocidental).
Essa ideologia do tempo é cruel e, como qualquer crueldade, alimenta a consciência moral. Isso não sou eu - exatamente- quem diz, li no seminário 7 de Lacan. E tendo a me inquietar sempre com as leituras que faço. Então, vamos elaborar melhor isso.
Sabemos que há outras formas de idealizar esse lugar sobre o qual escrevi mais acima. Em suma, é uma espécie de promessa sobre algo que virá, mais ou menos parecido com um lugar cor de rosa. Mas, enquanto o corpo ideal não vem, o reconhecimento social não surge, o príncipe encantado não se revela.... enquanto isso... Ah...enquanto isso...o sujeito se açoita. Não é metáfora; é discurso. Porque, no limite, ele acha/sente/pensa que sua empreitada não está sendo bem sucedida.
Num mundo como o nosso, que prega o imperativo do gozo e da felicidade, o sujeito, para dar conta desse “insucesso”, goza na autodestruição ou na destruição do outro. Não por acaso o corpo é esse lugar material que é açoitado pelo sujeito.
O corpo, na sociedade capitalista do século 21, parece ser a única coisa que o sujeito (imaginariamente) acha que é dele. Vejam como isso é sério! Ou seja, o corpo é essa potência. Mas mais do que isso: o corpo é a SUA possibilidade de PODER. E isso, amigos, não é pouco.
Faz sentido isso pra você quando pensamos nos transtornos alimentares e na automutilação?
Lembro-me da música “Clarice” da Legião Urbana: "A dor é menor do que parece. Quando ela se corta, ela se esquece... que é impossível ter na vida calma e força”.
A questão é: como ter satisfação sem se destruir e sem destruir o outro? Pergunta indigesta. E aqui vai mais uma dose de indigestão: Não trata- se de uma solução ideal, pastoral, comportamental. Não é ideal porque, pra Psicanálise, não há ideia de sujeito ideal, de normatividade. A “solução” é ética. Por isso o ato analítico está muito mais perto de uma ética do que de uma ciência.
Numa análise não se nega ou tenta burlar a contradição e o conflito que são constitutivos do humano. Isso não tem jeito, e nem nunca terá. Mas haveria uma solução ética onde a deriva da pulsão pode ser ancorada no simbólico. E como trata-se de uma ética, e não de um código de ética, essa solução será sempre singular. Sempre será no um-a-um.
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