Uma dose: Ter ou não ter filhos, eis a questão?

A discussão sobre procriar (pro-criar), maternar e paternar (atos distintos) é muito potente e tem acontecido com força nesse nosso século 21.

Enquanto, de um lado, há uma demanda social/histórica sobre a suposta necessidade ter um filho, do outro, há um questionamento sobre essa demanda. E a questão que insiste é: por que ter filhos? / para que ter filhos? A primeira pergunta busca uma causa, a segunda uma finalidade. Não são triviais. 

Essa discussão também cresceu, na minha opinião, por causa do movimento feminista, que, no mundo todo, tem ganhado ainda mais  relevância social.

 Questionar um ato, tão naturalizado, é revolucionário, pois, no limite, permite que, principalmente as mulheres, se impliquem nisso, não para desistirem de serem mães, mas para questionarem suas decisões e supostas vontades. 

Ao perguntar "por quê?", a demanda histórica desliza...fica sob deriva....dando espaço para que o questionamento sobre os nossos desejos surjam. Afinal, "por quais razões mesmo eu quero ter filho?". 

Os debates sobre "ter ou não ter filhos" surgem nesse nosso tempo histórico, especificamente, como efeito de um  desejo; o desejo de (nos) saber, afinal, por que eu quero aquilo que eu penso que quero?

Há uma potência ética nessas discussões/questões. Essa potência se dá pelas condições em que elas ocorrem: pelas bordas, ainda que, às vezes, ganhem as mídias (imprensa, filme, redes sociais, publicidade, novela). 

Porém, essa potência ética é transformada em qualquer outra coisa- não potente- quando isso que ocorre nas bordas, ou seja, quando esse 'desejo de saber sobre o meu desejo' é capturada pelo Estado, como fez a campanha com o slogan 'Só tenha os filhos que puder criar' produzida pela Secretaria Municipal de Saúde de Quaraí, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul,  com o apoio do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul.

Trata-se de um bom exemplo do que ocorre quando o Estado entra em cena e tenta imprimir uma demanda para o desejo.  Ou seja, quando aquilo que pulsa vira agenda política.

Em outras palavras, quando o Governo toma pra si essa "tarefa" de organizar os valores, os afetos, os princípios, os desejos, ele já os transforma. Transformação que se dá  no processo de tentar organizá-los.  

E o que era desejo (desejo de saber) vira demanda (eu tenho que saber), enfraquecendo a potência das discussões sobre o que significa procriar, maternar e paternar na sociedade brasileira. 



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