Uma dose: Freud explica...passado, presente, futuro
Sempre me peguei pensando por que Freud recorria tanto à infância pra argumentar suas descobertas; como se a infância fosse a fase mais importante da vida. Pensava comigo: “Esse não seria um jeito de super valorizar, mitificar e de até fantasiar a infância?”. Até porque, pensava e continuo pensando, a “infância” é uma invenção histórica.
Daí eu, sem conhecer muito Freud, como a maioria dos que o criticam, achava blasé demais essa história de “infância”.
Pois é...Até que ao me envolver com a psicanálise, eu entendi - não pela via teórica propriamente, mas pela prática analítica- que os eventos da infância não são importantes para o trabalho de análise porque eles seriam mais marcantes do que os eventos da fase adulta (até por que, né?, onde começa a fase adulta?), e sim porque os eventos da vida adulta tomam sentido e relevância a partir do nosso passado. E daí faz ainda MAIS sentido pesar a psicanálise no campo das ciências da linguagem do que num campo biológico/psicológico.
Os sentidos só fazem sentido (sentidos sempre ancorados no imaginário e no simbólico, ou seja, na linguagem) a partir de determinadas condições, e a história é elemento fundamental para compreender isso. A história numa perspectiva materialista, inclusive; aquela que não se reduz à história do indivíduo, mas a história como essa "rede" de significações, que produz, inclusive, memória.
Quando a gente conta algo, a gente se conta também, e, ao nos contarmos, a gente não sabe de onde vem os sentidos que se constituem em nós, porque antes da gente "se contar", a gente foi contato. Nesse momento, podemos arriscar dizer, o sujeito é todo ele atravessado por duas hipóteses fundamentais: o inconsciente e a ideologia.
Resumir a experiência analítica a uma ideia de que fazer análise é voltar à infância, falar sobre a infância, buscar um evento primeiro e original na infância "que explicaria tudo", só demonstra que a pessoa que tem essa ideia nunca se submeteu a um trabalho de análise/psicanálise.
O seu/meu dizer no divã é um ir e vir. Um percurso que tem historicidade e que não se regula entre passado, presente e futuro, numa lógica cronológica, mas entre presença e ausência de sentidos. É esse jogo de presença e ausência que permite a construção de uma memória que estará sempre sob efeito de suas atualizações. A linguagem é, portanto, essa estrutura que "marca" o sujeito.
Então, lhes digo, de modo geral, que o passado tem sim importância, mas não é uma importância que se fecha nele mesmo, ao contrário. Como tentei dizer acima, o passado é importante não porque ele "explica" o presente, mas porque ele da sentido ao presente.
Não é por acaso que vivemos uma tentativa de apagamento do passado, o que diz muito sobre o nosso tempo histórico, o da hipervalorização do futuro, da felicidade sem fronteiras, sem limites, da máxima "esquece isso e bola pra frente" ou ainda "não vou arriscar ficar com esse cara porque não vai dar certo".
Essa tentativa de deixar o passado opaco é uma questão, no limite, política-ideológica, e que, portanto, afeta o inconsciente. Essa "política", digamos assim, se materializa quando alguns governos tentam apagar seus eventos passados para não terem que lidar com os acontecimentos presentes. Apaga-se a escravidão, apaga-se a exploração, apaga-se a ditadura civil-militar, por exemplo.
Para a Psicanálise (se realmente orientada pelos escritos de Freud), não existe 1) de um lado o indivíduo e 2) de outro lado a sociedade. Assim como não existe a ideia de inconsciente coletivo, porque o inconsciente é o coletivo. O inconsciente é o lugar em que podemos localizar e situar o sujeito histórico, o político e a ideologia.
Para dar um exemplo que deixa essa questão mais compreensiva, uma vez o psicanalista lacaniano Contardo Calligaris escreveu uma metáfora para falar sobre o inconsciente e a singularidade do sujeito. Disse ele que o inconsciente era uma plateia de teatro. Quando o sujeito adquire um bilhete, onde está escrito qual será sua poltrona, esse “lugar”, digamos assim, inaugura o que seria a singularidade do sujeito. Porém, é preciso lembrar de não esquecer que esse lugar fora imposto pela distribuição dos ingressos, não se tratando, portanto, de um lugar "natural". É o que Freud chamou de castração, uma marca do sujeito, algo que é sempre singular e intransferível. Uma vez sentados, aquilo que comandará as nossas emoções será sim nossa singularidade, MAS...a partir de valores, leis, desejos, censuras, repressões, que agitam também os outros espectadores, os quais vão rir, chorar, vaiar o espetáculo junto com a gente. Emoções que "comandam" a todos, mas que nos comandam de formas diferentes.
O sentido de singularidade, para a Psicanálise, não pressupõe uma ideia individualista da subjetividade, mas social, no limite; isso porque, a depender do seu lugar na plateia, o espetáculo lhe afetará de uma forma diferente que afetaria outro espectador.
Pegando gancho na metáfora de Calligaris, caso a plateia não esteja com todas as poltronas completas, dá até para "burlar" a determinação primeira e mudar de lugar, o que não é muito comum. O mais comum é a gente bater palma porque a maioria da plateia está batendo palmas. Essa metáfora também nos provoca a pensar sobre a potência, mas também a desgraça dos grupos, da manada.
Em suma: o lugar x da plateia é a singularidade do sujeito que SÓ PODE ser concebida no conjunto. Ou em outras palavras: não há o todo sem a parte e nem a parte sem o todo. A parte sem o todo torna-se todo.
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