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Mostrando postagens de 2018

Uma dose: Qual é a minha responsabilidade naquilo que (me) acontece?

Qual é a minha responsabilidade naquilo que me acontece? Qual é a sua responsabilidade naquilo que lhe acontece? Fazer essa questão não é simples, mas é um ato ético, no limite. As nossas dores e nos nossos prazeres  também dizem respeito a nós. Infelizmente, na maioria das vezes, terceirizamos essa responsabilidade. E ao terceirizar, fantasiamos um pouco. Só que na fantasia a gente não precisa encarar o real. Esse real que aparece as vezes como RESTO daquilo que não foi possível ser simbolizado, que não foi possível ser verbalizado. “A nossa amizade acabou porque ela me traiu”.  😲🤨🧐 Quando não nos implicamos naquilo que nos acontece, nos tornamos fugitivos dessa experiência e experimentação que é a vida. Não estou dizendo que fugir não seja doloroso. Até porque, para fugir, a gente quase sempre produz rejeição. Rejeitar, transformar em lixo... faz com que o “abandono” seja mais cômodo. Não quero dizer que fugir seja necessariamente algo fácil, no entanto,...

Uma dose: Cinismo de nosso tempo

Não vivemos uma nova ideologia e nem uma pós-ideologia. A ideologia (uma hipótese) está funcionando como sempre, a questão é que ela se apresenta de outras formas. O cinismo parece ser o funcionamento disso que chamamos ideologia, isto é, aquilo que tem sua estrutura na linguagem e por isso se materializa nos discursos. Para que haja discurso é necessário que haja sujeito, e para que haja sujeito, como categoria analítica, é preciso considerar a ideologia, essa operação na qual a língua e a história estão em movimento. Na Antiguidade, o cinismo tinha a ver com a posição-subjetiva-discursiva do sujeito. De forma bem resumida, o cínico, como um cético, não estava preocupado com os argumentos utilizados pelos poderosos, mesmo sabendo sobre esses argumentos. O cinismo na Grécia funcionava como um trabalho de ousadia, que produzia certa resistência. Mas a linguagem não é algo assim tão evidente, tão formatada, estática, e o cinismo também pode ser um funcionamento bem poderoso para o ...

Uma dose: Por que a gente procura uma análise?

Cada um vai por um motivo, ou varios   Eu fui levada para análise por algumas razões: a transformação da minha imagem com o processo de emagrecimento, a relação com a comida, os pensamentos obsessivos, a necessidade de buscar um diagnóstico...  Além delas, a ideia, frágil, de que eu saberia de mim, que eu ouviria um saber diferenciado que me colocaria acima de qualquer sintoma. Como muitos, fui pra análise como eu ia para a terapia ou pra consulta com o médico: fui atrás de um saber sobre mim que estaria alocado naquele sujeito, no caso o analista.  Uma vez minha analista, num excelente manejo, me chacoalhou: “você está atrás de um diagnóstico!”.  Aquele corte foi profundo e absolutamente delicado, ao mesmo tempo.  Numa análise a gente descobre que não há autoconhecimento, ou seja, não existe a ideia de que você fará análise para se conhecer melhor. Numa análise você dá de cara com os limites, ou seja, com o desconhecimento. Aquelas fantasi...

Uma dose: Há prazer na dor?

A dor e o prazer são “coisas” muito próximas. Há uma linha muito tênue que as separam. Freud se dedicou a essa questão.  No início ele entendia que havia prazer na dor. Depois ele entendeu que dor e prazer são diferentes. O “no” é que não se trata de uma diferença escancarada e tão pouco fácil de ser lida. A grosso modo, o prazer tem ritmo! A dor já é um descompasso. Essa diferença se marca no corpo, acontece na linguagem. Ou em outras palavras, acontece no sujeito. Indo mais pra Lacan, a dor é aquilo que atravessa uma camada desconhecida, se esvai e por isso atormenta, causa angústia! O prazer, ao contrário, de algum modo “organiza” a vida do sujeito psiquicamente. O masoquismo, por ex, organiza um gozo numa suposta dor, mas cuja dor de tão conhecida deixa de ser dor. Confuso? O masoquista tem prazer na dor, mas não em qualquer dor, senão na que ele controla e conhece. Há também quem goze na repetição. Sabe a famosa “ladainha”? Fulano fala, reclama, reclama, mas sempre...

Uma dose:O desejo nunca é pelo objeto

Segunda-feira, meio dia. Ele sai da reunião com a boca amarga pelo café que acabou de tomar. No caminho até seu carro, uma vontade súbita de fumar um cigarro. Pensa em parar e comprar um maço. Desiste. Só queria um trago, no máximo um cigarro. Lembra que no caminho há um posto de gasolina. Para em uma loja de conveniência, sedento, e pergunta, com uma certa urgência: “vende cigarro solto?”.  (...) enquanto procura , meio atrapalhado , as moedas escondidas no bolso da calça, pensa: “que delícia!” (...) “Vou dar um trago”. Compra chicletes sem açúcar. Cogita pedir um isqueiro pra moça que o atendeu, mas desiste. Decide guardar  o cigarro, ir embora e fumar quando chegar em casa. Antes de seguir viagem, toma muito cuidado para que seu único cigarro não corra o risco de ser amassado em alguma curva. O coloca, então, dentro do porta luvas....pronto.  Da partida no carro e vai feliz. No caminho, só pensa em chegar logo em casa, deitar no sofá e saborear seu cigarro. E...

Uma dose: Ter ou não ter filhos, eis a questão?

A discussão sobre procriar (pro-criar), maternar e paternar (atos distintos) é muito potente e tem acontecido com força nesse nosso século 21. Enquanto, de um lado, há uma demanda social/histórica sobre a suposta necessidade ter um filho, do outro, há um questionamento sobre essa demanda. E a questão que insiste é: por que ter filhos? / para que ter filhos? A primeira pergunta busca uma causa, a segunda uma finalidade. Não são triviais.  Essa discussão também cresceu, na minha opinião, por causa do movimento feminista, que, no mundo todo, tem ganhado ainda mais  relevância social.  Questionar um ato, tão naturalizado, é revolucionário, pois, no limite, permite que, principalmente as mulheres, se impliquem nisso, não para desistirem de serem mães, mas para questionarem suas decisões e supostas vontades.  Ao perguntar "por quê?", a demanda histórica desliza...fica sob deriva....dando espaço para que o questionamento sobre os nossos desejos surjam. Af...

Uma dose: Precisamos eliminar o mal-estar?

Sinto lhe desapontar, caro leitor, mas não é possível eliminar o mal-estar.  O que se pode fazer, contudo, é questioná-lo e, quem sabe, transformá-lo.  Mas, deixe-me explicar-lhe uma coisa importante: não é possível eliminar o mal-estar porque ele é uma condição por vivermos no simbólico. Somos sujeito de linguagem, nossa vida se constitui no laço social mediado por essa estruturada chamada de linguagem; algo que não é natural, obviamente, mas que ao mesmo tempo que sofre determinações também determina.  Por não ser possível eliminar o mal-estar, não existe essa coisa de que uma análise/terapia/yoga/meditação/livro de autoajuda promoverá "autoconhecimento" ou te fornecerá o segredo da "felicidade plena", propostas teológicas, no limite, e que não passam de tentativas de apagar a verdade indigesta: o mal-estar não é eliminável. Mas, Porém, Todavia, Entretanto (sempre há um "a mais" que faz uma boa diferença). Não é porque o mal-estar é ...

Uma dose: O paradoxo do poder

Calma! Este não é um post sobre política, apesar de ser. Este não é um texto sobre capitalismo, apesar de ser. Mas, sem dúvidas, este não é um texto sobre autoajuda.  Queria começar esse papo dizendo que eu não tenho muitas certezas. E quando escrevo isso, não se trata de arrogância ou de uma posição desengajada. Trata-se de reconhecer os limites do próprio saber.  Porém, se tem uma coisa que eu tenho quase certeza é de que a vida NÃO nos reserva um destino, num sentido pastoral; como se viver fosse um estado de preparação para um lugar ideal, em que haveria uma espécie de harmonia última. Bom, há quem acredite que esse lugar é a velhice, quando a aposentadoria chegar; outros acreditam que esse lugar é quando a morte chegar. Ou seja, há um sentido cronológico sobre como o  tempo é concebido nas nossas formas de viver (ocidental).  Essa ideologia do tempo é cruel e, como qualquer crueldade, alimenta a consciência moral. Isso não sou eu - ex...

Uma dose: Freud explica...passado, presente, futuro

Sempre me peguei pensando por que Freud recorria tanto à infância pra argumentar suas descobertas; c omo se a infância fosse a fase mais importante da vida.  Pensava comigo: “Esse não seria um jeito de super valorizar, mitificar e de até fantasiar a infância?”. Até porque, pensava e continuo pensando, a “infância” é uma  invenção histórica.  Daí eu, sem conhecer muito Freud, como a maioria dos que o criticam, achava blasé demais essa história de “infância”.  Pois é...Até que ao me envolver com a psicanálise, eu entendi - não pela via teórica propriamente, mas pela prática analítica- que os eventos da infância não são importantes para o trabalho de análise porque eles seriam mais marcantes do que os eventos da fase adulta (até por que, né?, onde começa a fase adulta?), e sim porque os eventos da vida adulta tomam sentido e relevância a partir do nosso passado. E daí faz ainda MAIS sentido pesar a psicanálise no campo das ciências da linguage...